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Monday, August 28, 2006

Salmo 8

Puseste Tua glória nos Teus céus,
Tua força, ordenaste nos infantes,
Para calar inimigos, bem antes,
Lua e estrelas preparas, lindo véu.

Homem, simples mortal, mas o visitas;
E sempre se recorda do rebento.
Quase tal qual um anjo, solto ao vento,
Nos fizeste, dando-nos as pepitas,

Ovelhas, bois, campestres animais;
Aves do céu, os peixes desse mar,
Sobre todas as coisas, dominar...
Por isso; meus irmãos, a Deus, louvais...

Tua beleza, caminhando livre

Tua beleza, caminhando livre
Na sala, flutuando a cada passo;
Qual fosse garça, graças no cansaço;
Que, por ser sonhador, eu tanto tive...

As minhas noites, tudo, enfim, revive,
Na delícia sutil; sem embaraço,
Vou seguindo-te manso, traço a traço;
Desenhas, mal percebes, um declive.

O murmúrio da brisa, da sacada
Pressinto teu suave, éter, respiro.
No momento seguinte, me retiro;

Procuro então, sentir-te, em vão, deliro.
O teu andar sereno, esvai-se em nada;
És fátua, visão na madrugada...

Salmo 7

Confio em ti, Senhor! Do que persegue
Me livre, não permita que minh’alma
Seja despedaçada sem que a calma
Da liberdade, seja enfim, entregue...

Mas se perversidade ,em minhas mãos,
Tomar lugar, permita que m’alcance
O inimigo e reduza, num só lance,
Toda glória e respeito dos irmãos!

Pois tenha fim malícia dos impuros,
O meu Senhor, escudo, me proteja
Daquele que, somente, me deseja
O mal, tuas espadas sobr’os duros,

Quem não se converter, já tem armado,
Espada, arco, mortais, bem afiadas...
Na cova que cavaste, verás, marcadas,
As vidas que escolheram, o lado errado...

Su’obra cairá sobr’a cabeça,
Retos de coração serão os salvos;
Entretanto dos ímpios, Farás alvos,
Louvemos Meu Senhor, que eu O mereça...

Gilberto e a Apendicite

Na sua adolescência Gilberto era um poço de saúde. Menino criado com vitaminas preparadas por Dona Rita e na base de muita fruta pega nos quintais de Santa Martha, às custas de alguns sustos e um ou outro tiro de sal na bunda, crescia à olhos vistos..
As costas largas cultivadas nos banhos de rio, demonstravam um exemplo claro de que vida livre, com exercícios físicos e boa alimentação fazem, realmente, um efeito maravilhoso...
Mas, num dia quase fatídico, amanheceu com uma dor na barriga. A dorzinha que, de início, era fraquinha, foi se intensificando.
A princípio dona Rita achou que as lombrigas estariam fazendo uma festinha no abdômen do rapaz mas, como as gotas de elixir paregórico não tiveram o efeito esperado, começou a se preocupar.
Em pouco tempo, Beto se contorcia de dores, gemendo e gritando, desesperadamente.
Como Santa Martha não tinha médico e, muito menos, hospital, a solução era levar o pobrezinho para Ibitirama, onde há um posto de atendimento, bem equipado por sinal.
O médico plantonista era um tal de Doutor Marcos Valério, um ortopedista que começara a trabalhar ali há pouco tempo.
Ao ver o rapaz se contorcendo e gemendo, ao apalpar a barriga, percebeu que o quadro merecia uma atenção especial.
A apendicite aguda era uma hipótese que não poderia ser descartada.
Como o laboratório era de difícil acesso, e não conseguia vaga para transferir o pobre rapaz, mandou verificar as temperaturas anal e axilar.
A diferença dessas temperaturas, muitas vezes, demonstra a possibilidade de apendicite ou de processo infeccioso naquela região.
O resultado tinha sido inconclusivo, então mandou pegar uma veia do paciente, colocar um soro e observar.
Passadas duas horas, com a piora do quadro, mandou reavaliar as temperaturas para constatar se tinha havido alguma mudança.
Nada, o resultado tinha sido igual ao anterior. A vaga não aparecia e Beto, entre manhoso e dolorido, parecia um bezerro desmamado, gritando e esperneando a todo momento.
Depois de um outro período, nova averiguação, também inconclusiva...
Nesse meio tempo, começou uma tempestade daquelas que só acontecem nos contos e nas histórias...
A chuva desabando, raios e trovões espocando a cada momento.
Gilberto, por sua vez, gritando e gemendo.
Temperatura vai, temperatura vem...
Tudo correndo desta maneira até que, para desespero de todos, aconteceu o pior.
A noite se aproximara e a luz, não resistindo às intempéries do tempo, acabou.
Sala do repouso lotada, a enfermeira não teve alternativa; acendeu uma vela.
Beto, no desespero da dor, ao ver aquela luz bruxuleante se aproximando e escaldado de tanto termômetro pra cá, termômetro pra lá, não titubeou:
-Tudo bem, mas apaga isso primeiro!

Castanha do castanheiro Trovas

Castanha do castanheiro,
E do pinheiro, o pinhão...
Amor, pra ser verdadeiro,
Não precisa de perdão...

Recebi tanta coragem,
Desde o dia que nasci;
Amor foi minha bobagem,
Nos teus braços me perdi...

Andréa tem, com certeza,
Um olhar amendoado;
Quando mira, traz beleza,
É a flor do meu cerrado...

Menina pensa direito,
Não me faça covardia.
Amor que bate no peito,
Via batendo todo dia...

Recebi o teu recado,
Te respondo nos meus versos;
Amor é jogo marcado,
Então procuro os ingressos...

Bate sino da matriz,
Anuncia o casamento.
Noivo seguindo feliz,
Noiva n’arrependimento...

Me restam poucas lembranças,
Memória é coisa que trai;
Brincavam duas crianças,
Saudade, no vento, vai...

Um dia, simplesmente, foi embora

Um dia, simplesmente, foi embora,
Deixando tão somente teu retrato;
Lágrima denuncia: faltou tato,
Até minha viola, tudo chora...

Quem me dera poder estar agora,
Ao lado de quem fora meu regato,
De quem me foi servida, fino prato;
Apenas solidão, triste, vigora...

Como és bela, Lili, minha sonata;
Abrindo a madrugada, a serenata,
Traduz o que senti, restou sequer

Um retrato, maltrato de mulher,
Esquecido, jogado; um bem me quer,
Guardado na moldura, toda em prata...

Meu barco, navegante sem destino

Meu barco, navegante sem destino,
Errando pelos vários oceanos...
Piratas dos amores meus enganos,
Vagando nos meus sonhos de menino.

Recebo teus chamados, bato o sino,
Desmancho minha vida sem ter planos,
Meus dias são resgates dos meus anos,
Nas mãos de minha morte, desatino...

Revendo toda sorte de naufrágios,
Eu tenho me cobrado, tantos ágios.
Venero tuas rédeas, sou corcel;

Procuro meu futuro no teu céu,
A boca azeda medra sem ter mel,
Meu caminho vai pleno d’apanágios...

Meu barco, navegante sem destino

Meu barco, navegante sem destino,
Errando pelos vários oceanos...
Piratas dos amores meus enganos,
Vagando nos meus sonhos de menino.

Recebo teus chamados, bato o sino,
Desmancho minha vida sem ter planos,
Meus dias são resgates dos meus anos,
Nas mãos de minha morte, desatino...

Revendo toda sorte de naufrágios,
Eu tenho me cobrado, tantos ágios.
Venero tuas rédeas, sou corcel;

Procuro meu futuro no teu céu,
A boca azeda medra sem ter mel,
Meu caminho vai pleno d’apanágios...

Trazendo a mão cansada do plantio

Trazendo a mão cansada do plantio,
Buscando na cachaça, seu consolo,
Muitas vezes achando que foi tolo,
Como é difícil; terra tem seu cio...

O chão pesado, pernas no vazio,
Compressora essa vida, traz seu rolo,
No final sobrará, velório e bolo.
De tudo que restou, nem mais um pio...

Lavrando a terra, chuvas trazem festa;
Semente brota, cobrem toda fresta
Do solo mais gentil, por vezes, fera...

Nas mãos cansadas, tanta vida gera,
Dos seus olhos distantes, a cratera
Dessa desesperança é o que, enfim, resta...

No que fui, valentia foi piada

No que fui, valentia foi piada,
Tive sorrisos, faço minhas contas.
Foram precisos, minhas iras tontas;
Nada passou de nada, simples nada...

Agora invento minha madrugada,
Estrelas adormecem, suas pontas
Nunca mais chegariam; nem apontas
Mais seus olhos;certeiras tais flechadas...

Mandarim sem mistérios, por sinal,
Minha fúria contida, carnaval...
Eu masco minha vida, faço planos...

Mas bem mais sutilmente, passam anos.
Tramas e desenredos são enganos.
Nada mais levarei, resta o final...

Tenho tantas vertigens; dói joelho

Tenho tantas vertigens; dói joelho,
Pernas andam cansadas e pesadas.
Meus olhos estão bem vermelhos,
A vida vai passando, temporadas...

Minhas mãos doloridas, cada artelho
Trazendo seus sinais, cartas marcadas;
As rugas companheiras deste espelho,
Demonstram intempéries das jornadas...

Tudo envelhece, sinto, o tempo corta;
A cada dia, sigo devagar.
Essa distância, tanta vida morta,

Procuro convencer-me, procurar
O diabo que está atrás da porta;
Mas nada encontrarei, serei meu par...

Cordel - A minha sina - capítulo 4 - No dia em que o Diabo criou chifre

Depois de ter conhecido,
O neto de Lampião,
Lenda viva do sertão,
E tendo me convencido
Que nada mais é perdido;
Fiz pro moço, uma proposta,
Coisa de gente que gosta,
Ir pelo sertão afora,
Sem ter dia mês e hora;
Mas partiu, nem deu resposta...

Sozinho pelas estradas,
No meio de tanta areia,
Procurando pela teia,
Seguindo novas pegadas,
Esperando outras jornadas.
Homem valente de fato,
Encontrei uns três ou quatro,
Mas não queria de sócio
A vida precisa d’ócio,
Pescando nesse regato.

Acontece que sujeito
Que vive dessa maneira,
Pulando da barranceira,
Não pode ver um mal feito,
Acha que tá no direito,
De se meter em rabuda,
Não pode ver da miúda
Que entra em nova enrascada,
Saindo de madrugada,
Atrás de moça taluda...

Joaquim me deu pousada,
Pros lado do Patrocínio,
Falou num tal vaticínio,
Coisa das muito enrolada,
Botei meu pé, nova estrada,
E parti bem de mansinho,
Levando meus bagulhinho,
Guardados no meu bornal,
Quarta feira, carnaval,
Ia de novo sozinho...

Nessa mesma quarta feira,
Que é de cinzas pode crer
Montado num zabelê
Filho duma égua estradeira,
Pru móde ser mais ligeira,
Que eu precisava chegar,
Determinado lugar,
Na curva do Zebedeu,
E lá mesmo é que se deu
Isso que eu vou lhe contar...

Chegando nessa serrinha,
Que é lugar bem diferente,
Um monte de gente crente,
Disse que toda tardinha,
Avoa umas avezinha
Fazendo gesto indecente,
Mas é coisa de veneta,
Imagina, coça as teta,
Dando banana pro povo,
Os cabra mexe nos ovo,
Que isso é coisa do capeta!

Fui pagando para ver,
No que essa história daria,
Subindo na ventania,
Sem ter medo nem por que,
Esse trem vou resolver.
Num tem nem mais precisão,
De fazer sua oração,
Sou um cabra penitente,
Num tenho medo de gente,
Que dirá d’assombração!

O lugar era bonito,
Tinha cor do meu tiê
No meu velho metiê
Nunca tive tanto grito,
De mulher vaca e cabrito,
Zoando feito vespeiro,
Até fiquei mei besteiro,
Mas não arredei meu pé,
Chegando com pontapé,
Entrei nesse pardieiro.

No meio da confusão,
Reparei numa bobagem,
Reparei na sacanagem
Que não tinha nem perdão,
Um tremendo mocetão,
Tava toda machucada,
A bunda toda lanhada,
Riscada com um chicote,
Mesma hora dei o bote,
Levando a destemperada...

Moça bonita e dengosa,
Tinha os olhos rabichados,
Os lábios grossos, inchados,
Um perfume igual a rosa,
Eta bichinha gostosa!
Eu, na hora pensei nela,
Arretada matusquela,
Banquete prum homem só,
Nem pensei em ter mais dó,
Esqueci dessa esparela...

A moça num conseguia,
Falar na minha linguagem,
Mas pra quem quer sacanagem,
Era de pouca valia,
Entender o que dizia,
Não preciso nem falar,
Comecei a cutucar,
A moça de pouco a pouco
O troço deixando louco
Vontade de não parar...

Que boca boa, eu beijava,
A minha mão bem safada,
Fazia sua jornada,
Enquanto ela delirava,
Sua blusa eu abaixava,
As tetas todas macias,
Minhas mãos eram vadias,
Chegavam nas suas coxas,
As florizinhas mais roxas,
Não tinham tais serventias...

A perna da moça aberta,
Esperando pela clava,
Tanto gozo que se lava,
A danadinha era esperta,
Coisa boa que se flerta
Nunca se esquece mais não,
Deitei gostosa no chão.
Cavalguei essa danada,
Minha vida desgraçada,
Parecia ter perdão...

Tanto gosto, tanta festa,
Depressa a noite chegou
Quem gozou não reparou
Uma porrada na testa,
Uma pancada indigesta,
Acabei desacordado,
Quando vi, tava danado,
No meio desse barraco
Que recendia a sovaco,
Misturado com meleca
Reparei nessa boneca,
Mas sentindo do meu saco...

Num canto, tava amarrado,
Pelo saco sim senhor,
Por isso senti a dor,
Um calor desesperado
Tô frito, talvez assado,
Eu pensei por um segundo,
Nessa merda eu me afundo,
Não vai sobrar nem pentelho,
Vi um cabra de vermelho,
Mais feio que o tal Raimundo...

A morte não tinha pressa,
Fiz promessa de jurar,
Que nunca mais vou matar,
A minha mão Deus engessa,
Atadura nem compressa,
Precisa mais ter valor,
Nunca mais um matador,
Nunca mais um sanguinário,
Se meu Deus me der contrário,
Prometo agir com amor...

Apois bem, nem compensava
A morte via de perto,
Nem podia ser esperto,
O troço se complicava,
O moço os olhos injetava,
Com brabeza sem igual,
Meu último carnaval,
Era fava mais contada,
Toda tristeza instalada
Morto naquele arraial...

Uma voz de touro bravo,
Foi berrada neste instante,
Com três metro o tal gigante,
Me disse: em teu sangue lavo
Tu não serves nem pra escravo,
Depois dessa que aprontou,
Essa mulher que pegou,
Fez safadeza de fato,
Fez dela gato e sapato,
Pro chão, você arrastou...

Essa dona é melindrosa,
Com ela não bole não,
Ela é minha tentação,
Do jardim é minha rosa,
Eu sei que ela é bem fogosa,
Já lhe dei muita pancada,
Mas bem sei que a desgraçada,
É chegada em aprontar,
Qualquer um que for chegar,
A vadia é bem chegada...

Mas nunca tinha me dado,
Tanto trabalho afinal
Nesse fim de carnaval,
Parece ter despertado,
O que tem de mais tarado,
As pernas não sossegou
Depressa ela se entregou
A um vagabundo sem eira,
Depois de tanta besteira,
Um par de chifre botou...

A minha cabeça lisa,
Tá ficando encaroçada,
Por causa da disgramada,
Que tanta lição precisa,
Em teus bagos se batiza,
Não vai sobrar mais nada,
Nem sombra dessa safada,
Nem de você seu matuto,
Agora cansei, fiquei puto
Essa conversa fiada!

O trem estava fedendo,
Eu não vi mais solução,
Amarrado no culhão,
O calor já tava ardendo,
Eu pensei: já ‘to morrendo,
Num tem outro jeito não,
Pedi a Deus seu perdão,
E rezei com muita fé,
Mas, de repente, num pé
De vento uma solução...

Quando senti ventania,
Olhei de beira pro lado,
O troço tava arretado,
Meu Bom Deus me protegia,
Apesar das covardia
Que tanto fiz por aí,
Nesse momento eu senti,
Que meu Pai não me deixara,
Nesse vento que ventara,
Surgiu, do nada, o Saci...

Junto com o Pererê
Tava amigo Virgulino,
Que em todo esse desatino,
Nunca iria se esquecer
Dum amigo pra valer,
Companheiro do perneta,
Um tocador de trombeta,
Um arcanjo lá do céu,
Que no meio desse escarcéu,
Deu porrada no capeta!

Trazia de tira colo,
Aquela santa menina,
Ela mesmo, a tal Marina,
Por pouco que eu não me enrolo,
Vendo nesse mesmo solo,
O trio que me salvara,
Tomar vergonha na cara
E parar de safadeza,
Me perdendo nas beleza,
Vou parar com essa tara...

Sunday, August 27, 2006

Planeta Azul

A primeira vez nua, em nosso espaço;
Que tão distante, longe sem embaço,
Te desnudaste inteira, Terra amiga,
Cantávamos felizes, u’a cantiga...

Eras muito mais bela; nenhum traço
Desenhara-te linda assim; Picasso,
Nem Da Vinci, nenhum deles; me diga
Quem pudera pensar que a Terra antiga,

De beleza gentil e inesperada,
Fosse roubar teus olhos, minha amada;
Pois tão sedenta andava só de luz;

Assim, mal percebendo o triste blues,
Num momento de glória, apaixonada,
A Terra, qual teus olhos, tão azuis...

A paz

Meu caminho seguindo pela vida,
Transcorrendo gentil e tão risonho;
E mal contendo, luzes em meu sonho...
Recebendo o calor na despedida.

Em todos teus respiros, ó querida;
Muitas vezes deparo, tão medonho
Quanto cruel, deixando-me tristonho...
Por tantas vezes, foste já vencida...

Morrer por ti, me sinto até capaz;
Quanta delícia, amiga, o vento traz...
Nas tuas mãos, tão alvas quanto belas,

Quisera Deus, poder tê-las singelas,
Na ternura do cais, saveiros, velas...
Companheira possível, és a PAZ...

Gauche na vida

Quando meu nascimento aconteceu,
Houve silêncios, vagos murmurinhos;
Jogado ao canto, lerdos passarinhos,
Fingiam nem cantar, entristeceu...

Em tal momento obscuro, tanto breu,
Coloriu minhas ruas, meus caminhos;
E negra solidão, somos vizinhos...
Nascido esse moleque, mundo ateu...

A morte preparou a despedida,
Enfim não resistiu, foi vencida...
Ludibriei a sorte mais safada.

De tudo me restou, bem pouco ou nada.
A voz desafinou, descompassada...
Como a profetizar: gauche na vida!


Em Homenagem a Carlos, outro gauche na vida...

Conhaque

Confusão decidida num segundo.
E vamos recordar o que foi fado.
Não deixes, na parede, esse recado.
Senão eu não prossigo nesse mundo...

Profusão do que tanto sei profundo,
Na maresia quero ser salgado.
Valentia e maré trazem pescado,
Mundo redondo, mundo tão rotundo...

Marionete, sinto, sou movido;
Na sensação, dever que foi cumprido...
Minha emoção, cadência sem poema.

E se fosse sertão, seria emblema;
Mas nada mais será, a vida rema.
Conhaque me deixando, comovido...

Nada mais

Batucando meu samba sem compasso,
Vou vivendo sem passo e sem poema;
O que demais que a vida nunca teima.
É, da morte, sentir medo e cagaço...

Sinto-me, tantas vezes, um palhaço;
Perdido vagabundo sem ter lema;
Não quero clara, quero ponto, um trema.
Na fonte fiz, farei; mas nunca faço...

Na sordidez leal que tu me tinhas,
Amor que era bem pouco, parcas linhas.
Vestido tirolês: comenta leite...

Não quero nem inglês, talvez azeite;
Nem estou procurando quem aceite,
Fazer de todo canto, essas vizinhas...

Teus seios, doces seios, tão macios...

Teus seios, doces seios, tão macios...
Quem dera poder neles me perder;
Eu saberia então o que é viver!
Quisera conhecer teus vários rios...

Nas coxas que deflagram mais vadios,
Orgasmos são procuras, quero ter;
Delicioso campo do prazer.
Quem dera misturar os nossos cios!

Penetrando com calma, devagar,
Essa estrada tão bela lembra o mar;
N’umidade gentil; teu belo sexo.

Venceria, feliz, o meu complexo,
Viveria contigo: seu anexo...
Explodindo os dois juntos num gozar!

O meu tempero é tua boca amarga

O meu tempero é tua boca amarga;
Meus dentes, tentativas de mordida.
Não quero mais sangrar a despedida,
Nem quero sentir tudo qu’alma embarga...

Minha carta, postada, tudo alarga;
Só meu desejo, nunca mais traz vida,
Minha vida, fecunda e bem curtida;
Não suporta, nos ombros, essa carga...

Disseste-me verdades incompletas,
Navegante perdido, tão sem metas.
Meu rumo, sem ter prumo nem ter rima.

Faz de tudo, machuca a auto-estima,
Finges doçura, falsa não és lima.
Estradas curvas, mesmo nessas retas...

Ninguém acertou na mosca

Final de campeonato, jogo entre Pedra Roxa e Santa Martha. Estádio lotado!
Na arquibancada, estavam sentados Dadinho e Gilberto quando, ao perguntar as horas para um sujeito que estava sentado na carreira atrás, tiveram uma surpresa no mínimo agradável.
Zezinha Muriçoca, uma das mais belas e desejadas garotas de Pedra Roxa estava sentada dois degraus acima.
Sentada e usando uma minissaia extremamente convidativa e reveladora.
Reveladora não era a palavra correta, já que tal visão gerara uma dúvida atroz.
Gilberto que tinha se aposentado precocemente no futebol, depois dos episódios já descritos sobre a confusão dos bombons e do apelido, não titubeou.
Afirmou peremptoriamente que a deliciosa moçoila estava usando uma calcinha preta.
No que foi, imediatamente, desmentido por Dadinho. Calcinha preta que nada, estava era mesmo sem calcinha!
Calcinha preta pra cá, sem calcinha prá lá, a discussão estava esquentando.
Até que resolveram apostar, aposta entre irmãos, coisa de dez reais, por aí.
Para que não houvesse mentiras e isso Beto não admitia, amigo incondicional da verdade que era, decidiram pedir ajuda a Pedro Gambá, a essas alturas um abstêmio totalmente confiável.
Pedro, imediatamente aceitou a missão “delicada”.
Iria chegar até bem perto de Zezinha Muriçoca e decidiria a questão.
O jogo tinha começado e todo o público estava empolgado com a atuação do time de Santa Martha, todos, exceto Zezinha que estava preocupada com o time de Pedra Roxa, além de Gilberto e Dadinho, mais preocupados com as calçolas da garota.
Pedro Gambá estava demorando e Dadinho, desconfiado, solicitou que alguém fosse chamá-lo.
Quando foi encontrado, olhar fixo entre as pernas da incauta moça, pediu um instante e que iria descer em seguida.
Dez minutos depois, eis que surge o juiz da partida entre Gilberto e Dadinho.
Ansiosos com o final da contenda, perguntaram em solilóquio ao famoso Pedro Gambá.
-E aí? Quem ganhou?
Pedro, para surpresa de todos, deu um veredicto inusitado e inesperado.
-É, para falar a verdade, deu empate!
-Como? Empate?
-Não é calcinha preta e nem ela está sem calcinha...
Aquilo que vocês viram, é MOSCA...